O Blog da Sexy traz para você mais alguns trechos da entrevista que fizemos (a completa só em nossas páginas impressas) com o rapper Ja Rule, em São Paulo. Aqui, ele fala sobre a carreira de ator, suas influências no hip-hop, o começo nos clubes de batalhas de rima e o governo de Barack Obama.

Você tem quase 15 filmes no currículo. Frequentou alguma escola de ator?
Não, eu fui aprendendo com o tempo. No meu primeiro filme, me disseram que eu tenho um talento natural, e me dei muito bem. Depois disso, comecei a trabalhar com uma treinadora de atores para o próximo papel. E é mais ou menos assim que tenho trabalhado: quando tenho um papel, converso com a treinadora e tentamos achar um jeito de construir aquele papel, ela me prepara. Isso se for um papel bem importante. Se for uma participação pequena, eu só vou lá e faço.
E aparecem papéis que tenham a ver com você? Que tenham o teu perfil?
Às vezes, é assim. Mas, em outras vezes, tenho que buscar o papel, batalhar com outros atores. É sempre uma aventura em Hollywood (risos).
Atuar é um desafio?
Sim, atuar é definitivamente um desafio para mim. Você tem que ir fundo dentro de você mesmo pra entrar nesses personagens. Você pode não saber nada sobre o personagem que está interpretando, como ele anda, como ele fala. Eu fiz um médico no filme Don´t Fade Away (2009) e tinha um monte de palavras grandes que eu tinha que falar de maneira convincente pra parecer que eu sabia de que porra eu estava falando. Uns termos médicos e…
Que tipo de médico você era? Ginecologista?
Não, eu não era um ginecologista (risos). Seria muito bom! Mas não era. O que eu era? Eu era um cirurgião, será que eu era cirurgião de cabeça? Era algum cirurgião, alguma coisa a ver com o cérebro, eu me lembro de olhar as radiografias de cérebros e tal. Mas foi um filme divertido. Aquela coisa toda de entrar no personagem… Na primeira cena que fiz, eu estava com o avental e só estava andando pelo corredor, e o diretor me puxou e disse: “Ja, você está muito cool, você não pode ter o seu gingado, seu jeito de andar normal, você não parece um médico!”.
Um médico do rap!
É! E eu falei: “Nem tinha pensado nisso, mas você está certo!”. Então, tive que endireitar o meu jeito de andar, comecei a andar ereto e esticado, como um médico andaria. Coisas pequenas assim, detalhes, que fazem a diferença. E é assim com cada papel.
Qual foi o primeiro rap que mudou a sua vida?
“Here We Go”, do Run DMC. Eu era jovem, e da mesma vizinhança deles, do Queens (Nova York). Tinha uns 9, 10 anos, e estava no parque, e eles estavam fazendo uma pop jam no verão, para a vizinhança. E fizeram “Here We Go” ali, na hora.
Foi como uma block party (festas de rua que aconteciam no início do movimento hip-hop, na década de 70) ?
Era como uma block party e era como um freestyle que eles fizeram. Era assim (faz a percussão com a boca e canta “Here we go”). Isso virou um disco depois, mas eles fizeram tudo ali na hora e no lugar. E esse momento me fez dizer “Uau, a música tem poder”, porque eles tinham todo mundo ali.
Quando você começou a participar das batalhas de freestyle (improviso)?
Irv Gotti (produtor) me levou para o Yonkers (bairro novaiorquino) para conhecer o DMX (rapper), e ele era um rei do freestyle lá. E foi aí que me apresentaram às batalhas de rappers. Naquela noite, quando me apresentaram, eu tinha um contrato de gravadora, todos olhavam desconfiados. “Se ele tem um contrato, você deveria me dar um também.” Ali, naquela hora, eu tinha que mostrar que merecia. Porque eu tinha aquele contrato.
E você estava disposto a entrar na batalha?
O que? Eu fui com tudo! Com tudo, com tudo! Foi um lindo dia, uma linda batalha. Foi assim que entrei nas batalhas e vi o quanto elas eram competitivas e ferozes. Eu não tenho medo de nada, não tenho medo de ninguém. Foi uma daquelas coisas que se me atacassem, tudo bem, eu atacava forte de volta. E eu tenho uma voz forte, quando eu estou gritando e berrando as letras, tudo que se pode ouvir é a minha voz. Então eu ganhei muito respeito como MC, porque estavam vendo como eu era lá.
O que você pensa do governo Obama e de sua eleição?
Eu acho que Obama está fazendo um ótimo trabalho. Eu acho que as pessoas estão sendo muito críticas com ele. Ele tem duas coisas contra ele no momento. A primeira é que ele é o presidente dos Estados Unidos. E as pessoas sempre criticam o presidente. E a segunda é que ele é negro. Então eles não estão sendo críticos somente com o presidente. Ele estão sendo críticos com o primeiro presidente negro. Eu acho que há muito criticismo desmerecido. Tipo: “O que ele está fazendo nesse talk-show? O que ele está fazendo ali?”. Parem de encher o saco dele, ele é só um homem. E está fazendo um grande trabalho.
E como você explica esse carinho especial pelo Brasil?
Eu realmente não sei explicar. Aqui é aonde eu comecei. Eu tenho uma paixão pelo Brasil e por Los Angeles. Pra mim, foram os dois turning points da minha vida. Eu não gosto de forçar idéias. Boas ideias aparecem. E foi como aconteceu com a capa do meu álbum. Eu não sabia que merda colocar, não sabia o que queria que fosse, o que eu queria dizer. Era Venni, Vetti, Vetti (1999), eu vim e conquistei, e queria capturar isso de algum jeito, mas não sabia como. E aí vi o Cristo, e pensei nisso na hora. Cristo veio e conquistou. Não fica melhor que isso.
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